"AIKIDÔ" UMA LUTA (CONTUNDENTE) DO ESPÍRITO

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Publicado em: 
Data: 
ter, 01.dez.1970
Seção: 
Caderno B
Pagina: 
página 4
Assunto: 
 
:::::: Transcrição ::::::

"AIKIDÔ" UMA LUTA (CONTUNDENTE) DO ESPÍRITO
Segundo os japonêses, a fôrça maior dêsse esporte está na mente, “êle serve como meio de praticar a filosofia”, e seus aspectos de defesa pessoal são secundários. Isso, porém, não o impede de ser altamente contundente: seus segredos foram guardados durante várias décadas, porque seus criadores temiam que servisse às guerras. Hoje, o aikidô está difundido pelo mundo inteiro, inclusive no Brasil.
Gustavo Praça

A primeira surprêsa que se tem ao entrar numa cademia de aikidô é a falta de agressividade. Os lutadores não parecem estar com raiva dos outros e nem dão gritos quando aplicam os golpes. O silêncio é enorme. A concentração dos dois que estão no tatami dá idéia de um misto de ioga e luta livre.

Sao muito ágeis: um giro rápido do tronco, sem que os corpos se toquem, é a maneira mais fácil de terminar a luta. Sem sôcos, sem violência. Mesmo quem está assistindo àquilo pela primeira vez, apesar de não conseguir perceber profundamente o significado, sente que é preciso tempo e muita fôrça mental. Um não está lutando contra o outro, mas com o outro. Isto percebe-se logo: o adversário nesta luta não existe.

O fundamental no aikidô, que quer dizer caminho da harmonia espiritual, é a sua origem da filosofia zen: não agressão e integração entre corpo e mente.

O objetivo é conseguir uma unidade em que o físico ajude o psíquico e vice-versa.

A luta – que na verdade é mais uma arte do que um esporte – serve como meio de praticar a filosofia e, secundàriamente, como uma forma de defesa pessoal, já que o poder mental liberta tôdas as potencialidades físicas, tornando o indivíduo muito mais forte e ágil do que normalmente.

Até mais ou menos uns 10 anos atrás, o aikidô quase não era conhecido. Desde a sua origem, no comêço do século, os japonêses que o praticavam guardavam fielmente os segredos de sua arte, com mêdo de que ela viesse a servir à guerra, como aconteceu com as antigas lutas dos samurais.

Com a comercialização das artes marciais co meio de defesa, o aikido veio à tona, e hoje já é grande a sua divulgação, inclusive no Brasil, onde há uma academia no Rio e outra em São Paulo. O seu verdadeiro sentido, no entanto, segundo Koichi Tohei – praticante de aikidô e autor de um livro sôbre êle – é alcançado por poucos.

–  O aikidô só se torna uma arte depois de se conseguir coordenar corpo e mente. Antes disto êle é apenas uma luta corporal como as outras.

UMA ARTE DA PAZ

Nos tempos do sistema feudal japonês, as artes marciais sofreram inúmeras subdivisões. Cada clã tinha seu tipo de luta, que era a forma de defender suasa terras, e guardava fielmente os segredos da arte de todos os que não fôssem da família. Havia pessoas especializadas em brigar com os pés, outras com bastão, e as que só sabiam se defender em disputas de chão.

Com o tempo, algumas famílias foram apreendo as artes de outras: um pontapé observado, uma cutelada assimilada, e surgia um nôvo ramo. O aikidô foi uma das muitas lutas que nasceram assim, com uma única diferença: sua finalidade era pacífica.

Foi mais ou menos no comêço do século XX que o filósofo Morihei Ueshiba, depois de ter se aperfeiçoado em várias artes, achou que aquilo tudo era inútil. Destruir e matar nunca levavam a nada.

Ueshiba resolveu percorrer o velho mundo para estudar o zen-budismo. De regresso ao Japão entrou para um convento, onde, em meio a suas meditações, criou uma nova luta que não tinha espírito competitivo e nem visava à derrota do adversário. Seu único sentido era o amor e o contrôle absoluto da mente e do corpo, “que foram feitos para funcionar juntos, e não para um atrapalhar o outro.”

No entanto, o contrôle mental conseguido por Ueshiba, aliado à sua técnica, fizeram com que o aikidô se tornasse altamente mortal, obrigando o mestre japonês a escolher seus alunos a dedo. Esta foi a causa da pequena divulgação da luta: era difícil aprendê-la e, poucos tinham oportunidade.

A INUTILIDADE DA FôRÇA

Existem mais ou menos três mil golpes no aikidô, cada um com 16 variações. O lutador procura sempre usar a seu favor a própria fôrça de quem o ataca: se o seu pé vira para a direita tôdas as partes do corpo seguem o movimento do pé. Isto faz com que o homem se torna uma espécie de esfera, que rebate tudo o que nêle se encosta, assim como o pião quando em movimento.

A luta não tem a continuidade das outras, porque não há a preocupação da vitória final. Quando um ataque é desarmado e um dos lutadores vai ao chão, o que ficou de pé espera o outro levantar-se para recomeçar tudo.

Todos os movimentos são muito rápidos e leves – à primeira vista parece até encenação – pois, como um simples toque num corpo em movimento pode arremessá-lo longe, não é preciso grande atrito físico.

O PODER DA MENTE

O poder mental é a parte mais complicada do aikido: Difícil de entender e de explicar: é quase uma intuição. Quando um homem dá um pontapé, por exemplo, êle tem consciência de que sua perna termina nos dedos. No entanto, se êle visualizar um raio infinito do qual sua perna é apenas o comêço, o golpe será muito mais violento. A fôrça espiritual do aikido consiste nisto: assumir o corpo não com uma totalidade finita, mas sempre como o centro de uma série de possibilidades de projeções infinitas dos membros.

Segundo Teruo Nakatani, que oi aluno do inventor da luta e hoje é professor da Associação Carioca de Aikidô, seu antigo mestre tinha um tal poder de concentração que certa vez sentou-se no chão, procurando projetar seu corpo para o interior da terra, e três homens fortíssimos não conseguiram levantá-lo. É bom lembrar que Morihei Ueshiba era magra e franzino.

Como esta fôrça mental é difícil de se conseguir em pouco tempo, as academias não exigem muito dos alunos iniciantes que, naturalmente, vão assimilando o sentido da arte, relaxando-se cada vez mais e começando a projetar seus membros sem sentir.

OCIDENTAL PRECISA RELAXAR

Era dia de promoção de faixa na Associação Carioca de Aikidô e os alunos esperavam a sua vez em grupos, rindo entre si. Um grande contraste com a época de exames em karatê, quando todos ficam tensos e nervosos. Para o professor Nakatani, um japonês pequeno e magro que ainda não aprendeu bem a nossa língua, isto acontece porque todos sabem que não estão ali competindo.

– A concorrência no Ocidente causou tanto dano que não existem psiquiatras suficientes para tratar de tôdas as pessoas cujas mentes não agüentam as ansiedades do dia-a-dia. Estudantes competem, funcionários competem em seus empregos, irmãos competem para ganhar maior atenção dos pais. É uma luta eterna contra o semelhante. Em aikidô isso não ocorre: cada um é amigo e ajudante.

O sistema de faixas em aikido é apenas uma formalidade, já que não existe vencedor e vencido. É verdade que cada um tem uma idéia de quem é melhor, mas sempre faltará uma verificação oficial. Para Nakatani o fundamental é integrar corpo e mente segundo suas possibilidades, e não ser melhor do que o outro para poder abatê-lo.

– Qualquer aluno poderia compra uma faca ou um revólver e matar um shodan (faixa-preta). Não tem sentido esta guerra comercial entre as artes marciais, onde cada um diz que sua luta é melhor que a do outro. Em primeiro lugar isto depende da capacidade de adaptação de cada pessoa a um certo tipo de luta. É claro que eu acho o aikidô a melhor forma de defesa pessoal, mas não é êste o objetivo de nossa arte.

Os brasileiros que aprende aikidô sente a primeira grande dificuldade quando procuram relaxamento e concentração, coisas a que o homem ocidental não está acostumado. Teruo Nakatani, sempre fala baixo e fechando os olhos para procurar lembrar-se das palavras em português, acha que é muito difícil se conseguir captar, em pouco tempo, uma concepção de vida tao diferente como a oriental.

– É preciso muita resignação e fôrça de vontade. Eu digo sempre aos meus alunos que é melhor êles aprenderem logo a se relaxar como um oriental, pois, do contrário, qualquer golpe mais violento lhe quebrará os ossos. E ossos quebrados doem muito.

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