NO "AIKIDÔ" A ARMA É A MENTE

Autoria: 
Publicado em: 
Data: 
dom, 24.jun.1973
Seção: 
Revista de Domingo
Pagina: 
página 4
Assunto: 

 

:::::: Transcrição  ::::::

NO "AIKIDÔ" A ARMA É A MENTE
Norma Couri

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A luta entre duas pessoas foi requintada ao ponto de se tornar uma arte no Japão. E entre as mais requintadas está o aikidô, uma forma de combate que equilibra os extremos, apagando as barreiras que nós, ocidentais, erguemos entre o físico e a mente, entre ação e a contemplação. 
Dojo é o lugar onde se pratica essa luta de vitórias, na verdade uma marte marcial que utiliza apenas a mente com arma. É o aikidô. Nessa luta não existe agressão, porque a conquista que se pretende não é a do adversário, mas a de si próprio. Porque o aikidô, além de ser uma arte de autodefesa, é uma filosofia que ganha cada vez mais adeptos no mundo inteiro. 
E, no Rio, pode ser praticado na Associação Carioca de Aikido do professor Teruo Nakatani, e em algumas academias.
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DOIS homens se preparam para a luta. Sentados sobre o tatame em posição zazem – apoiados nos pés, as pernas meio abertas – eles se fixam nos olhos. Os músculos estão relaxados e o pensamento, livre. De reprente, os dois se levantam, ambos com uma das pernas à frente, as mãos levantadas além do peito, como se empunhassem uma espada. O ataque partirá de um deles e a toda a arte da luta se baseia na defesa do outro que, com um golpe de mão aberta leva o atacante ao chão. Um giro rápido do tronco, como um compasso apoiado nas pontas dos pés, e a luta termina.

Se houve forca nesta luta foi apenas mental, de acordo com a filosofia que pode ser explicada pelo seu próprio nome. Aikidô significa caminha da harmonia espiritual, e toda a defesa de baseia na integração entre corpo e mente. É isto o que faz desta luta uma arte. Não há socos, violência, sangue, e a própria terminologia do aikidô define seus conceitos antagônicos àqueles veiculados nas lutas do cinema e da televisão. Aqui, o defensor é conhecido como nagê, ou aquele que joga, e o atacante como ukê, ou aquele que cai, porque nesta luta quem ataca acaba no chão.  

Seu criador, o filósofo japonês Morihei Ueshiba, costumava dizer que aikidô é amor – os movimentos devem ser circulares, assim como os movimentos da natureza, e o relaxamento é usado no lugar da força. Porque Ueshiba era, antes de mais nada, um mestre da meditação, que descobriu que destruir e matar nunca levam a nada. Quando criou o aikidô, no início do século, utilizando técnicas de artes marciais mais antigas seu único sentido era a não competição, e o controle absoluto da mente e do corpo que – segundo ele – foram feitos para funcionar juntos e não para um atrapalhar o outro.

Mas o controle mental conseguido pelo mestre tornaram o aikidô altamente mortal. Tal é a concentração, que um simples golpe pode matar o adversário, e este era um dos grandes medos de Ueshiba. Se sua arte se transformasse numa arte de matar, toda a filosofia que a envolve não teria sentido e daí o seu cuidado em escolher muito bem os alunos. Cuidado que, segundo alguns, já era tomado há 800 anos.

Um conceito oriental

As linhas do aikidô já começam a se diferenciar da maioria das lutas quando se aprende que não existe competição. Não se luta contra o outro mas com ele; ninguém se preocupa em vencer o adversário e sim em melhorar cada vez mais a própria arte. Vencer ou perder é um conceito limitado, e o que o aikidoca pretende é se integrar na natureza.

Para isso ele acredita no poder da mente contra o poder da força. Nas ondas de espírito que existem no universo e na sua captação. Na harmonia da existência. Na multiplicidade de formas e percepções de cada um. Na unidade das coisas e, principalmente, na unidade entre o céu e a terra.

Mas no dojo onde os professores de aikidô ensinam toda uma filosofia que no final resultará numa eficiente aula de defesa pessoal, é fácil ver nos alunos as marcas da violência da nossa civilização. Segundo o professor Nakatani, da Associação Carioca de Aikido, a concorrência no Ocidente causou tanto dano, tanta ansiedade, que é sempre difícil para um ocidental captar, em pouco tempo, a concepção oriental de vida.

– É preciso resignação e força de vontade. Sempre digo aos meus alunos que o primeiro passo é aprender a se relaxar como oriental, ou qualquer golpe mais violento poderá lhes quebrar os ossos.

Num mundo que estimula a graduação, a competição e o progresso como elementos indispensáveis à sobrevivência, os conceitos desta arte oriental parecem quase inatingíveis. George Leornard, em seu artigo O Aikidô e a Mente Ocidental, explica:

– O aikidô equilibra os extremos. Seus ensinamentos apagam as barreiras que os ocidentais ergueram entre o físico e a mente, entre a ação e a contemplação. Ele oferece contemplação e transcendência. E é ao mesmo tempo ativo e efetivo. Na relação entre o individuo e o mundo, entre o nagê e o ukê, o aikidô permite reformular nossas teorias sobre a ação e, muitas vezes, elevar o corpo humano a níveis que não atinge há muito.

Segundo esta concepção, a perfeição existe, e não é impossível alcançá-la.  

A perfeição para todos

Tudo consiste em desenvolver o ki – um espécie de forca cósmica espiritual – que deve se concentrar cinco centímetros abaixo do umbigo. No momento da luta, este ki perfeito captará as emanações do ki do adversário e pressentirá o ataque. E o atacante poderá usar qualquer um dos três mil golpes do aikidô que o atacado não reagirá com violência. Apenas usará em seu próprio favor a força usada contra ele, respeitando-a, e então conduzindo-a para onde quiser.

Todas as defesas e os ataques são feitos com a força espiritual do ki, nunca com a força do físico. Assim, uma criança pode lutar contra um adulto e um jovem idoso com um jovem. Basta que se concentrem num dos 365 pontos vitais – que todo bom aikidoca conhece tao bem quanto os mestres de acupuntura – do corpo do adversário. E concentrar o ki.

– A energia jorrando através do braço e da mão do ukê e escorrendo pelo seu pulso como uma cachoeira – descreve George Leonard referindo-se à forma ideial de se lutar o aikidô.

Um exemplo do poder de concentração é dado pelo próprio Ueshiba, que era magro e franzino, mas que não pôde ser levantado nem por três homens incrivelmente fortes quando resolveu, sentado ao chão, projetar seu corpo para o interior da terra.

O aikidô, por tudo isso, é muito mais do que uma luta. É uma aula de autodefesa, uma concentração espiritual, uma arte e muito mais do que uma filosofia de vida, embora seja todas essas coisas juntas. O seu segredo está escrito pelas mãos do próprio mestre Morihei Ueshiba:

– O segredo do aikidô é a nossa harmonia com o movimento do universo. Devemos sempre nos ajustar a ele. Os que descobriram o segredo do aikidô trazem o universo em si e podem dizer “eu sou o universo”. Isto não é apenas teoria. É um longo caminho de prática que nos leva a aceitar e a compreender o poder desta identificação com a natureza.

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Aikidô significa caminho da harmonia espiritual. O que faz desta luta uma arte é que toda a defesa se baseia na integração entre o corpo e a mente.
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